sábado, 25 de fevereiro de 2012

De que fala o som ao vento


Ouvem-se teorias do tudo e do nada. Como se algum sentido fizesse dar rumo ao vento e responder à mãe natureza. Grita-se pela nota erguida no ar, grita-se pelo beijo perdido na madrugada, grita-se pela vida que é a dos outros e que desejávamos insaciavelmente para nós.
Corre a vida pelo mundo fora para descobrir que toda a teoria escrita e descrita em papel mal forjado, em dia de tempestade precoce, fala dita e acentuada sem sentido nem nexo, acabam por não ser nada mais do que uma vontade do indivíduo para si mesmo, bárbaro miserável da sociedade, para responder ao seu próprio espelho da alma que não existe.
E vê-se do espelho o reflexo invariável do dia em que tudo haveria de mudar. O nunca. E nada se vê na transparência de si mesmo, se não se estiver disposto a abrir o corpo e despir a roupa idealizada pelo outro, para vestir o que nos pertence a nós mesmos.
Chega de cobardia, de gritar ao vento negro, de morrer por armas, de enfatizar o mundo de acordo com aquilo que queremos dar a entender que somos. Chega de fazer de majestades mitológicas ou divinos nossa condição. É-se o que se é.
Ninguém conhece ninguém sem se conhecer primeiro a si mesmo. E verdade seja dita, ninguém no mundo está categoricamente preparado para chegar frente ao espelho e ver o que o espera. São precisos espelhos de alma que sirvam de lição.
Porque não importa a etnia, a raça, a deficiência, o sexo, as escolhas, as formas de vida dos outros. Nada disso importa! Porquê especular uma vida inteira sobre aquilo que queremos que os outros conheçam de nós, mas que nunca corresponde?
Para dar vida ao deserto, areia perdida de um horizonte sem fim. A felicidade nunca advém da estupidez, mas da astúcia de aceitar os outros.

Joel Anjos
Fotografia de Vasco Leão

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Sentido Pendular I


Murchou junto das labaredas amargas do tempo. Planta plantada em dias de maldição, concluiu. Homem velho, também ele rematado pela demora; dono de uma voz, réplica do dia em que sementes eram ouro. Possuía uma barba desfigurada, semeada em dias de tempestade.
Céu limpo e sujo, rancor vindo do ódio. Musicalidade e harmonia no momento da vitória. E ali estava ele, sentado perto de uma janela, a ver o mundo que foi o dele. Alma embaraçada no desfile das emoções pragmáticas, melodias do malabarismo da maldição.
Apenas um espermatozóide é o escolhido, aquele que atravessa a crua fêmea, tomando da forma vida, pronto para uma avassaladora viagem sem retrocesso possível. A luta e o entendimento chegam à bravura do colossal momento da partida; um olhar pela janela, de quem vê o passado atravessar-lhe diante dos olhos a velocidade precipitada. Maresia escorregadia no meio do mar. Pureza nas emoções.
E corre o pensamento pela areia fina, corpo entregue ao vento, dado à força do mar. Desfeito de tudo o que não trouxe ao mundo, lá corre, para junto de uma luz que poderia guiá-lo ao momento determinante; o da verdade.
O festejo e a glória, mas sobretudo a corrida pelo alcance do destino. Sonhos ficam para trás; bastou-lhe tê-los para os sentir como filhos órfãos, nevoeiro serrado no mistério das emoções.

E nesse momento, junto do seu pêndulo, acompanhante de uma vida passada, tenta encontrar um sentido a tudo o que o trouxe onde estava, com tudo o que trazia consigo. A bagagem era pesada, sobretudo no pensamento. E por muito que se corra em vão, que haja travagens nas sensações, aquele amigo da saudade e solidão ainda ali permanecia. Esperava o dia em que o sentido pendular deveria chegar.
Como se do destino se tratasse, uma aragem entrou pela janela, estrutura abatida pelo tempo. Os sentidos acusaram a presença do momento determinante; o da despedida à vida, fio fino e frágil, sem princípio e meio. Apenas com fim, sentido pelo meio, que só é vivido por quem o quer.

Joel Anjos
Fotografia de Mário Timm