Murchou junto das labaredas amargas do tempo. Planta plantada em dias de maldição, concluiu. Homem velho, também ele rematado pela demora; dono de uma voz, réplica do dia em que sementes eram ouro. Possuía uma barba desfigurada, semeada em dias de tempestade.
Céu limpo e sujo, rancor vindo do ódio. Musicalidade e harmonia no momento da vitória. E ali estava ele, sentado perto de uma janela, a ver o mundo que foi o dele. Alma embaraçada no desfile das emoções pragmáticas, melodias do malabarismo da maldição.
Apenas um espermatozóide é o escolhido, aquele que atravessa a crua fêmea, tomando da forma vida, pronto para uma avassaladora viagem sem retrocesso possível. A luta e o entendimento chegam à bravura do colossal momento da partida; um olhar pela janela, de quem vê o passado atravessar-lhe diante dos olhos a velocidade precipitada. Maresia escorregadia no meio do mar. Pureza nas emoções.
E corre o pensamento pela areia fina, corpo entregue ao vento, dado à força do mar. Desfeito de tudo o que não trouxe ao mundo, lá corre, para junto de uma luz que poderia guiá-lo ao momento determinante; o da verdade.
O festejo e a glória, mas sobretudo a corrida pelo alcance do destino. Sonhos ficam para trás; bastou-lhe tê-los para os sentir como filhos órfãos, nevoeiro serrado no mistério das emoções.
E nesse momento, junto do seu pêndulo, acompanhante de uma vida passada, tenta encontrar um sentido a tudo o que o trouxe onde estava, com tudo o que trazia consigo. A bagagem era pesada, sobretudo no pensamento. E por muito que se corra em vão, que haja travagens nas sensações, aquele amigo da saudade e solidão ainda ali permanecia. Esperava o dia em que o sentido pendular deveria chegar.
Como se do destino se tratasse, uma aragem entrou pela janela, estrutura abatida pelo tempo. Os sentidos acusaram a presença do momento determinante; o da despedida à vida, fio fino e frágil, sem princípio e meio. Apenas com fim, sentido pelo meio, que só é vivido por quem o quer.
Joel Anjos
Fotografia de Mário Timm
Fotografia de Mário Timm
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