sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

A Formiga no Palácio


O início é a maior marca de que o fim há-de chegar. Os sorrisos do tempo não são mais que uma farsa mal preparada, construção apresentada a quem não a merece. E daí advém a maior necessidade do mundo actual; espelhos de alma. Erguidos em estrutura fina e larga, amaldiçoada pelo bem-dizer, devem encaminhar o mundo inteiro à avaliação dos seus próprios comportamentos.
O julgamento próprio e devido, de si mesmo antes do outro. A queda do corpo sobre a terra, a luta e a desistência. A persistência no vazio e a tentativa de recolher dos outros o seu pior lado. Precisam-se paredes espelhadas para a alma de quem não a sente – todos.
O padrão é assumido como devido. Chegou a altura de gritar, chegar o ouvido à solidão e ouvir a lição que ela quer pregar. Ir à raiz humana e descodificar dos membros o corpo, do ramo a árvore. A alma segrega tudo o que nos conduz onde havemos de chegar, mas nunca lhe foi dada a oportunidade de se observar primeiro a si do que aos outros. Atiram-se pedras ao vazio, como se daí surgisse uma solução à sobrevivência humana. Cai o corpo e a pedra no chão.

Anda uma formiga pelo seu castelo, também determinado palácio a quem assim o quer. Resvala em sorrisos próprios, negação à sua solidão. Edificou aquele monumento em si mesma durante anos e fez dele nascer um paradigma; o da solidão. Paredes erguidas de costas para o mundo lá de fora. Sobe as escadas a ritmo acelerado, tentando ver o que está para além do que a rodeia. Encontra o sentido, não aquele que procurava, mas outro; o das sensações perdidas no tempo.
O mundo é demasiado pequeno para tantas ideologias, senso desigual da função humana, que não ultrapassa uma surreal e singular solidão.





Joel Anjos
Fotografia e vídeo do espectáculo "Intermitência", pel'O Capítulo

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Coroa do Bom Pastor


Pobre aquele que não sabe o que oferecer ao mundo senão a sua própria ignorância. Não se vive do passado nem do que o futuro há-de trazer; o presente é a componente transitória, verdade assente do que se pretende.
Não é raro ver-se cair os louros de um céu profundo sobre os pés de quem nunca os mereceu. A coroa cai e não se levanta. Queda aparatosa, fracção milimetricamente delimitada. Mas sempre e inevitavelmente aplaudida de pé. Sobem-se as bancadas da verdade, resta esperança. Os aplausos são cada vez mais fervorosos; acabam por cair na rotina do esquecimento.
A decisão é uma das maiores provas ao mundo que um homem não passa de um animal agarrado ao que trouxe ao mundo. Só um verdadeiro homem se completa com tal prodígio, de ter a coragem de tomar a decisão. Contra os aplausos e a festa encenada, seguir o seu percurso na escura noite. Pouco se vê em noite tão cerrada; o mundo é mais feliz assim.
A musicalidade do silêncio é das maiores experiências humanas. Planta desenraizada paira sobre a nuance desse momento. E enquanto isso as palmas das mãos já doem; o espírito não se cansa. Ri-se o músico do maestro, como se a mestria fosse fruto desencaixado do tempo, coroa atirada do céu ao desencanto. E talvez o seja.
               
Todos continuam e acabarão a vida a aplaudir a queda da coroa nos pés errados, expectativa aquém de toda a realidade necessária ao conhecimento feliz. Amaldiçoada ração do mundo que fortifica tudo, menos o espírito e a alma. O outro continuará pela escuridão da noite o seu percurso que nunca acabará.
O bom pastor sabe ao que o chama o mundo; é bom realçar o mérito, mas é evitado lançar coroa a todas as amostras que as raízes concebem. A decisão raramente é tomada e assumida, assim como a coroa raramente é bem entregue.
Joel Anjos
Fotografia de Aristeu

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Intermitências da Conformidade


Estranho ser este que não vive, sonhando com a morte. Intermitências do desconhecido, do que nos trouxe aqui. Longa caminhada se espera, até ao fim; mas só para quem estiver disposto a descalçar os pés nos tempos difíceis, a deixar-se arrojar pelo vento amargo quando a chuva não desiste.
Caminhos cruzados com uma coordenação fatal, infelicidade no pensamento. Ninguém sabe que rumo tomar quando a decisão é a mais simples e banal; seguir aquilo em que se acredita. Projecto de vida para o qual se luta, cruzando as intermitências do destino, conformidade desfalecida do que se espera. Dorme-se na almofada do outro, veste-se o corpo do outro. Faz-se dos outros nossos espelhos, como se os defeitos deles fossem metáfora do que há de bom em nós. É preciso gritar ao mundo que somos nós mesmos, estrutura feita e pronta. Defeituosa e arrogante; acabada e individual.
Grita um tropeço de alma à sua existência, procurando estabelecer-se na direcção da luz; nada nem ninguém lhe responde. Os gritos repetem-se, desta vez com dor; sofrimento indistinto no momento terminal. Sopra o vento pela montanha; cospe a chuva para o chão. Violência indeterminada na caminhada. Estagna. E grita outra vez ao fim do mundo que o tormento termine. Responde-lhe uma voz do fim do corredor do tempo; presença impune a qualquer semelhança. A tempestade da vida não é a mesma da Natureza; é a única em que apenas nós podemos pôr um ponto final.

Até que parou de chover. A alma entendeu finalmente a lição da sua vida: tinha nascido por milhões de pessoas que correram para o destino que não os aceitou, fruto do prazer ou da maldição. Nascera para viver uma vida em glória de todos os que venceu para existir. Apenas um espermatozóide é o escolhido. Um campo de batalha onde o suor não se vê nem se faz sentir. Honrar o nome que cada um viria a assumir. Mas bateram-lhe à porta nesse momento; triste ver que a lição chega no fim.

Joel Anjos
Fotografia de Guto Rodrigues

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Na Barca do Sonho (projecto)


“Na Barca do Sonho” é o nome da primeira longa-metragem do grupo de teatro e produtora O Capítulo, na qual assinei a realização, montagem, edição, produção e argumento, assim como uma personagem. É ao mesmo tempo a primeira adaptação da alegoria clássica de Gil Vicente, “Auto da Barca do Inferno”, para cinema.
A encenação da peça começou no final de 2010 e, por volta de Março, começou a surgir a ideia da transformação para o grande ecrã. Os pedidos foram enviados e, com persistência, conseguimos os espaços que queríamos: Convento de Cristo, Sinagoga (de Tomar), Palácio Sotto Maior e outros espaços que se preferem em privado.
Juntámos por volta de sessenta figurantes para esta aventura. Com início em Agosto e fim em Dezembro, gravámos esta longa-metragem de 70 minutos.
Um grande desafio, este, de honrar o nome de Gil Vicente e levar avante um longo filme, de caracterizações pesadas e desafiadoras. A pertinência do destino trouxe-me três grandes caracterizadoras; Leonilde Banha, com um extraordinário leque de escolhas de vestuário, Arlete Lopes, enquanto caracterizadora masculina e Vera Jacinto, uma grande descoberta na estrondosa caracterização feminina. Ao mesmo tempo, um elenco muito apropriado e trabalhador. Uma assistente de cena meticulosamente atenta e disponível.
A fase de pré-produção foi pesada – em dezenas e dezenas de ensaios e na adaptação do argumento. A pós-produção levou cerca de um mês, na edição e montagem do filme.
O resultado chegará este ano, em breve. Fica, por agora, o trailer deste projecto e um sincero agradecimento a quem acreditou neste resultado, mesmo antes do primeiro esboço.