terça-feira, 27 de março de 2012

Olhos postos na solidão


Os contornos de alma julgam tudo o que rodeia o corpo. A sobreposição de elementos desfaz-se em solitários pensamentos de aguarela suave, que encaminham ao mais profundo elemento. Contornos não são obstáculos, são pérolas de trabalho ao olhar, fumo saído de janela embaciada, que teima em não deixar sair o que guarda por si, como se fosse a sua própria existência.
As pessoas riem, choram, gritam. As pessoas morrem. E vivem em sentido daquilo que querem ver, daquilo que inesperadamente vão acabar por descobrir. A denúncia de uma verdade pura leva à divagação do olhar sobre os obstáculos. Boca de santo não fala. Todos vivem no seu submundo cauteloso e recatado, nunca disposto a assumir-se como total. A surpresa é uma reacção natural, quando se desconhece um contorno do elemento que se revelou. Mas talvez nem ele se conhecesse a si mesmo, nas condições, parâmetros e abordagens ao qual foi exposto.
Os olhos ficam deitados numa solidão aterradora, própria da natureza humana. Cada um vive dentro de si, sem nunca deixar sair a sua própria essência. Sente-se a maresia e o recuar do vento, janelas abertas ao que vem lá de fora. Loucura preste. Sente-se o ritmo da natureza, os gritos do vento e do mar, os sopros das montanhas e os vales do coração. O Mundo é perfeito como é, tudo se completa. Devem aceitar-se contornos como fugas ao olhar e pensamento. Nunca como travagens.
E o vento continuará a soprar. O coração a bater. O vidro a embaciar. E a vida continua, a paisagem não será sempre a mesma.

Joel Anjos
Fotografia de Daniel Lérias

sábado, 10 de março de 2012

Emaranhados da vida


A esperança está no que se lê, no que se sente, no que se ouve. A madrugada atira ao ar um assombrado castelo de areias desfeitas. Todos têm a sua sorte e o seu destino – tudo daí advém. A riqueza de ser pobre no momento bravio, a alegria de girar em torno de nós mesmos a fim de alcançar mais do que a sombra que se penetra.
O milagre de ler o que se sente é a esperança do nascimento em nós. O renascer do fio branco, puro e leal, que só se atinge uma vez. O julgamento é feroz quando dado a conhecer na madrugada do serão desfeito, lágrimas feitas ao pôr-do-sol. E resta a decoração da sala, pronta a acolher o bem-dizer e a glória, que se desfaz no segundo momento, na segunda parte da história que há-de vir. O chá é servido e elas riem-se, piedade desfeita ao luar. E depois transforma-se a maresia embaraçada em espaço vazio, recheado de ar negro do julgamento. 
A história começa, o livro abre-se. O submundo cresce incansavelmente; leva à planta a flor. Sucesso na descoberta, vontade de correr pela areia a tarde inteira, entregue ao Mundo e ao que ele lhe quiser fazer. Porque foi feliz naquele momento. Chega então a sombra da noite que tudo desfaz e leva ao pressuposto o engano. Rouba-se à planta a raiz, o corpo abate sobre a areia – agora fria e amarga. O vento sopra, chega a tempestade. Lágrimas do derradeiro momento da despedida, o adeus à última página que poderia sempre ser a primeira, se o universo e as constelações se unissem para tal. Nada ao céu é garantido; resta a decoração da sala vazia.
Termina a história. Restará apenas saudade ou esperança e vontade de a reabraçar.

Joel Anjos
Fotografia de Ana Caranova

sábado, 3 de março de 2012

Somatório da Desigualdade (projecto)

Somatório da Desigualdade é o meu mais recente projecto de vídeo publicado. Trata-se de um documentário acerca de uma das mutações cromossómicas mais conhecidas, designada Trissomia 21 ou Síndrome de Down.
Este resultado surge da completa colaboração da instituição tomarense CIRE (a quem deixo, desde já, um franco agradecimento).