A esperança está no que se lê, no que se sente, no que se ouve. A madrugada atira ao ar um assombrado castelo de areias desfeitas. Todos têm a sua sorte e o seu destino – tudo daí advém. A riqueza de ser pobre no momento bravio, a alegria de girar em torno de nós mesmos a fim de alcançar mais do que a sombra que se penetra.
O milagre de ler o que se sente é a esperança do nascimento em nós. O renascer do fio branco, puro e leal, que só se atinge uma vez. O julgamento é feroz quando dado a conhecer na madrugada do serão desfeito, lágrimas feitas ao pôr-do-sol. E resta a decoração da sala, pronta a acolher o bem-dizer e a glória, que se desfaz no segundo momento, na segunda parte da história que há-de vir. O chá é servido e elas riem-se, piedade desfeita ao luar. E depois transforma-se a maresia embaraçada em espaço vazio, recheado de ar negro do julgamento.
A história começa, o livro abre-se. O submundo cresce incansavelmente; leva à planta a flor. Sucesso na descoberta, vontade de correr pela areia a tarde inteira, entregue ao Mundo e ao que ele lhe quiser fazer. Porque foi feliz naquele momento. Chega então a sombra da noite que tudo desfaz e leva ao pressuposto o engano. Rouba-se à planta a raiz, o corpo abate sobre a areia – agora fria e amarga. O vento sopra, chega a tempestade. Lágrimas do derradeiro momento da despedida, o adeus à última página que poderia sempre ser a primeira, se o universo e as constelações se unissem para tal. Nada ao céu é garantido; resta a decoração da sala vazia.
Termina a história. Restará apenas saudade ou esperança e vontade de a reabraçar.
Joel Anjos
Fotografia de Ana Caranova
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