Os contornos de alma julgam tudo o que rodeia o corpo. A sobreposição de elementos desfaz-se em solitários pensamentos de aguarela suave, que encaminham ao mais profundo elemento. Contornos não são obstáculos, são pérolas de trabalho ao olhar, fumo saído de janela embaciada, que teima em não deixar sair o que guarda por si, como se fosse a sua própria existência.
As pessoas riem, choram, gritam. As pessoas morrem. E vivem em sentido daquilo que querem ver, daquilo que inesperadamente vão acabar por descobrir. A denúncia de uma verdade pura leva à divagação do olhar sobre os obstáculos. Boca de santo não fala. Todos vivem no seu submundo cauteloso e recatado, nunca disposto a assumir-se como total. A surpresa é uma reacção natural, quando se desconhece um contorno do elemento que se revelou. Mas talvez nem ele se conhecesse a si mesmo, nas condições, parâmetros e abordagens ao qual foi exposto.
Os olhos ficam deitados numa solidão aterradora, própria da natureza humana. Cada um vive dentro de si, sem nunca deixar sair a sua própria essência. Sente-se a maresia e o recuar do vento, janelas abertas ao que vem lá de fora. Loucura preste. Sente-se o ritmo da natureza, os gritos do vento e do mar, os sopros das montanhas e os vales do coração. O Mundo é perfeito como é, tudo se completa. Devem aceitar-se contornos como fugas ao olhar e pensamento. Nunca como travagens.
E o vento continuará a soprar. O coração a bater. O vidro a embaciar. E a vida continua, a paisagem não será sempre a mesma.
Joel Anjos
Fotografia de Daniel Lérias
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