sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Coroa do Bom Pastor


Pobre aquele que não sabe o que oferecer ao mundo senão a sua própria ignorância. Não se vive do passado nem do que o futuro há-de trazer; o presente é a componente transitória, verdade assente do que se pretende.
Não é raro ver-se cair os louros de um céu profundo sobre os pés de quem nunca os mereceu. A coroa cai e não se levanta. Queda aparatosa, fracção milimetricamente delimitada. Mas sempre e inevitavelmente aplaudida de pé. Sobem-se as bancadas da verdade, resta esperança. Os aplausos são cada vez mais fervorosos; acabam por cair na rotina do esquecimento.
A decisão é uma das maiores provas ao mundo que um homem não passa de um animal agarrado ao que trouxe ao mundo. Só um verdadeiro homem se completa com tal prodígio, de ter a coragem de tomar a decisão. Contra os aplausos e a festa encenada, seguir o seu percurso na escura noite. Pouco se vê em noite tão cerrada; o mundo é mais feliz assim.
A musicalidade do silêncio é das maiores experiências humanas. Planta desenraizada paira sobre a nuance desse momento. E enquanto isso as palmas das mãos já doem; o espírito não se cansa. Ri-se o músico do maestro, como se a mestria fosse fruto desencaixado do tempo, coroa atirada do céu ao desencanto. E talvez o seja.
               
Todos continuam e acabarão a vida a aplaudir a queda da coroa nos pés errados, expectativa aquém de toda a realidade necessária ao conhecimento feliz. Amaldiçoada ração do mundo que fortifica tudo, menos o espírito e a alma. O outro continuará pela escuridão da noite o seu percurso que nunca acabará.
O bom pastor sabe ao que o chama o mundo; é bom realçar o mérito, mas é evitado lançar coroa a todas as amostras que as raízes concebem. A decisão raramente é tomada e assumida, assim como a coroa raramente é bem entregue.
Joel Anjos
Fotografia de Aristeu

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