sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

O Purgatório


As certezas são substâncias distantes que nos são separadas por um nevoeiro, do qual D. Sebastião não há-de chegar. Um purgatório severo amarra-nos às mãos pregos enferrujados pela escura noite que estará sempre a anoitecer. O vento empurra de forma invisível, e por isso temível, fazendo com que aquele material penetre em nós; uma forma de violação natural ao sabor da natureza humana. Jesus morreu na cruz. E todos os dias, tantos quanto ele assim acabam o seu passeio moribundo sobre esta bola redonda.
Não somos mais de pequenas nódoas numa circunferência mal delimitada da cor do sol. Um fracasso científico, uma mentira da verdade. Uma sociedade inconsciente que se abate sobre a certeza de se possuir a si mesma quando, na verdade, procura pelo chão uma ponta de uma raiz de uma planta que lhe sirva de excepção.
Morrem todos os dias pessoas. E também nascem. O ciclo da oportunidade faz com que as estações do ano façam florescer pela terra flores que, um dia, acabarão por perder o brilho da juventude, o triunfo do momento. O Outono chegará a todos. Não há possibilidades de fuga a uma outra verdade que apenas nos conduz a um labirinto negro e difuso no pensamento de quem tenta ver além do infinito. O Inverno acontece.
Acima da queda de um corpo sobre a terra, acima de madeiras atiradas ao chão, há a morte em vida; a morte da alma. Nunca se saberá se era pura ou não. Apenas se quer saber o que lhe acontecerá. Se é avistada no horizonte, se é envolvida pelo nevoeiro. Talvez seja uma disputa da vida com a morte. Há-de existir um purgatório; aquele que será sempre o último da vida, primeiro da morte. Não importa se a terra não aceitou o que lhe teríamos para dar; importa apenas que tenhamos tido tempo de lançar a semente, que pode permanecer muito tempo inerte, mas nascer um dia. Nem que seja apenas a sua alma.

Mas afinal o que são esses poços redondos sem fundo de ocasião, estrutura perra e envergonhada, dita de purgatório? Perguntas da vida, respostas da morte.

Joel Anjos (Cidade de Tomar, 30 de Dezembro de 2011)
Fotografia de Alexandre P.

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