sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Ocasiões da Morte


O remo não está sem barco no meio de um oceano profundo. O céu não encontra o seu esplendor num vazio aterrador. Nem todos os pássaros voam na mesma direcção.
Uma fuga à indeterminação do destino, uma glória improvisada. Os passos dão-se ao som de um violino que continuará o seu percurso. Uma escala arrebatada pelos detalhes nunca percebidos, excepto quando os mais vistosos se escondem.
A incógnita do destino conduz-nos à nossa forma de vida mais liberta. Os passos continuam e entoam; as ocasiões da morte acontecem – o azul do mar transforma-se em espuma que vem à superfície. E tudo acaba como começa; o fim é uma permanente resposta ao princípio.
Os últimos acenos fazem-se chegar pela sabedoria de quem não se deixa morrer. Os pássaros continuam a sobrevoar um céu – que é o nosso, o de todos, o que não pertence a ninguém. O último adeus será igualmente o primeiro, se acreditarmos que toda a conduta nos conduz a algum sítio, não aceitando o mero acaso como resposta. A alma estará sempre viva se assim o quisermos; é uma escolha.
O abismo da natureza humana leva ao horror numa cadeira que será a última pausa, leva ao homicídio. Mas será que não morreremos também um pouco ao roubar a alguém tudo o que a consome? A morte nunca será individual. Levará também à desgraça ou satisfação de quem se reúne no último momento, no último aceno.
Mas mais importante do que a morte, enquanto resultado inequívoco da vida, há a vida, que é traçada por cada um de nós. Um desenho construído durante anos, retrato detalhado – e sempre inacabado – que nunca terá o último detalhe merecido.

Juntam-se os livros da vida no último abismo, primeiro significativo. Vozes invadem o plano mais profundo; talvez sejam melodias harmoniosas. E, no fim, os pés estarão sobre os livros, prontos para a eminência do fim. Ainda bem que nem todos os pássaros voam na mesma direcção.

Joel Anjos (Cidade de Tomar, 13 de Janeiro de 2012)
Fotografia de Filipe Sá

1 comentário:

  1. Esta cronica,faz nos libertar e dar maior sabor aquela que nos constrói,nos revela e predomina...

    Obrigado Joel

    Júlia Rita

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