O remo não está sem barco no meio de um oceano profundo. O céu não encontra o seu esplendor num vazio aterrador. Nem todos os pássaros voam na mesma direcção.
Uma fuga à indeterminação do destino, uma glória improvisada. Os passos dão-se ao som de um violino que continuará o seu percurso. Uma escala arrebatada pelos detalhes nunca percebidos, excepto quando os mais vistosos se escondem.
A incógnita do destino conduz-nos à nossa forma de vida mais liberta. Os passos continuam e entoam; as ocasiões da morte acontecem – o azul do mar transforma-se em espuma que vem à superfície. E tudo acaba como começa; o fim é uma permanente resposta ao princípio.
Os últimos acenos fazem-se chegar pela sabedoria de quem não se deixa morrer. Os pássaros continuam a sobrevoar um céu – que é o nosso, o de todos, o que não pertence a ninguém. O último adeus será igualmente o primeiro, se acreditarmos que toda a conduta nos conduz a algum sítio, não aceitando o mero acaso como resposta. A alma estará sempre viva se assim o quisermos; é uma escolha.
O abismo da natureza humana leva ao horror numa cadeira que será a última pausa, leva ao homicídio. Mas será que não morreremos também um pouco ao roubar a alguém tudo o que a consome? A morte nunca será individual. Levará também à desgraça ou satisfação de quem se reúne no último momento, no último aceno.
Mas mais importante do que a morte, enquanto resultado inequívoco da vida, há a vida, que é traçada por cada um de nós. Um desenho construído durante anos, retrato detalhado – e sempre inacabado – que nunca terá o último detalhe merecido.
Juntam-se os livros da vida no último abismo, primeiro significativo. Vozes invadem o plano mais profundo; talvez sejam melodias harmoniosas. E, no fim, os pés estarão sobre os livros, prontos para a eminência do fim. Ainda bem que nem todos os pássaros voam na mesma direcção.
Joel Anjos (Cidade de Tomar, 13 de Janeiro de 2012)
Fotografia de Filipe Sá

Esta cronica,faz nos libertar e dar maior sabor aquela que nos constrói,nos revela e predomina...
ResponderEliminarObrigado Joel
Júlia Rita